Presidente do TJ diz que sua paixão por Campo Grande foi ‘ amor a primeira vista’ e fala da sua privacidade

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Presidente do TJ diz que sua paixão por Campo Grande foi ‘ amor a primeira vista’ e fala da sua privacidade

Paulista de São José dos Campos, criado no Paraná e sul-mato-grossense de coração. O novo presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul diz em entrevista exclusiva ao site Comunique que ‘foi amor à primeira vista’ quando conheceu Campo Grande. Numa conversa descontraída, João Maria Los fala do começo da carreira, da família e de seus planos para quando se aposentar.

 

Comunique – Como foi sua trajetória até assumir a presidência do Tribunal de Justiça?

Desembargador – Eu sou paulista de São José dos Campos, mas fui criado em Londrina, no norte do Paraná. Me formei  em Londrina, advogava lá desde o primeiro ano de faculdade , estagiei num escritório de advocacia, me formei, me integrei ao escritório e nem pensava em fazer concurso para juiz. Mas, por uma dessas coincidências da vida no dia em que foi anunciada a divisão do Estado eu estava aqui em Campo Grande, cumprindo uma carta precatória, e pude ver a alegria e a festa da população, carreata, um carnaval, realmente, na rua e fiquei pensando comigo que era um lugar agradável para se viver. Uma cidade muito bonita com um povo festivo e alegre. Retornando a Londrina e conversando com um juiz que tinha estado aqui também, ele me fez umas ponderações e me convenceu que eu faria uma ótima escolha se eu viesse fazer um concurso aqui e me integrasse ao Estado. Eu pensei , refleti e cheguei a conclusão que era uma opção de vida e sabedor que havia um concurso aberto aqui eu fiz a minha inscrição e fui aprovado.

Comunique – Então foi um amor a primeira vista pela cidade?

Desembargador – (risos) Foi mais ou menos isso. Eu cheguei num dia que estavam fazendo festa né .  Então quando estão fazendo festa fica mais fácil de se apaixonar né ( risos). Mas, realmente fiquei encantado com o local e quando vim eu fiz a opção por Miranda que já era uma cidade integrada ao Estado e eu não queria ficar próximo ao Paraná porque se não ficaria mantendo o vínculo com o Paraná e como eu sabia que iria ficar muito tempo aqui eu queria me integrar totalmente ao Estado. Fui então para Miranda. Na época o asfalto acabava em Miranda, mas tinha uma vantagem que o segundo Fórum construído pelo Tribunal foi em Miranda que era um prédio muito estruturado e eu tive o privilégio de trabalhar num prédio muito bom.

Comunique – E depois de Miranda?

Desembargador – Depois em fui para Corumbá. Uma cidade também muito boa, um lugar muito bonito, peculiar.

Comunique – Cidade com rio também que já é uma grande vantagem!

Desembargador – Sem comentários porque eu não sou pescador (risos). Nenhuma das duas eu fui pescar. Só admirava a natureza e a beleza do rio que era magnifico. O Pantanal é uma coisa espetacular. Na época eu fui para Corumbá, fiquei quatro anos em Corumbá….viajava de trem.

Comunique – O velho trem do Pantanal…

Desembargador –  O velho Trem do Pantanal, comendo um bife a cavalo no trem e depois viajando pela Estrada parquet e a Estrada que era de chão e hoje é asfaltada. Às vezes você se deparava com uma boiada. Era um passeio muito agradável, apesar de cansativo.

Comunique – Contemplava a natureza!

Desembargador – Eu gosto disso. Minha infância foi em fazenda. Aprecio muito os ambientes naturais e o nosso aqui é maravilhoso né. Trabalhar aqui no Tribunal com essa paisagem é um privilégio ( O Tribunal fica numa área verde do Parque dos Poderes e é possível ver vários animais silvestre como, por exemplo, capivaras). Os desembargadores que vem de fora ficam encantados. Às vezes a gente está conversando e passa um bando de quati, cotia, sagui.

Comunique – Quando o senhor veio para Campo Grande?

Desembargador – Depois de quatro anos em Corumbá eu vim para Campo Grande. Logo em seguida, fui eleito presidente da Associação dos Magistrados e estamos ai trabalhando. Em 1997 fui promovido para o Tribunal de Justiça. Estou ai já há 17 anos no Tribunal. Já tenho 33 anos na magistratura, mas é uma carreira que me trouxe muito mais alegria do que tristeza.

Comunique – Quais são os sabores e dissabores da profissão?

Desembargador – Tristeza não existe. A carreira é feita de alegrias. Na verdade há percalços. Eu me lembro que nós ficamos períodos ai que o governo do Estado atrasava o repasse do Judiciário e nós tivemos períodos ai que ficamos três meses sem receber salário. Isso ai é desesperador. Então foram tempos muito difíceis. Até quando eu percebi que poderia ser presidente do Tribunal, eu comecei a me movimentar pra ter recursos para administrar o Tribunal e não ter dificuldade para pagar os salários. Ninguém vive sem salário. O servido público, o magistrado tem aquela vida regrada. Ninguém fica rico na magistratura, mas tem uma vida mediana e nós tivemos esses momentos ruins que foram terríveis, muito difíceis. Agora a maior parte é de alegria. Muitos amigos, muitas amizades, partes que eu julguei hoje são meus amigos. Eu sempre procurei manter relacionamento dentro da cidade onde morava e não manter aquela figura do juiz que fica trancado dentro do gabinete.

Comunique – O senhor é uma pessoa muito extrovertida né! Ao mesmo tempo a sua exposição acaba lhe trazendo riscos como um atentado que o senhor sofreu há algum tempo. Qual a sua preocupação com segurança?

Desembargador – Eu não tenho essa preocupação. Aquilo foi uma pessoa desequilibrada. ( o desembargador sofreu um atendado enquanto se reuniu com amigos numa lanchonete da cidade). Depois se constatou que ele tomava remédio controlado e estava ingerindo bebida alcóolica. É uma situação desagradável, mas não tenho essa preocupação e continuo saindo na rua. Não ando escoltado, não preciso andar com segurança. Acredito que Deus traça o destino nosso e cuida de nós. Eu sempre procurei sair e conversar com as pessoas. Gosto de fazer minhas caminhada e encontrar meus amigos. Não posso ficar trancafiado numa sala sem conviver com a sociedade. O juiz tem que ser sensível aos problemas da sociedade, conhecer as pessoas e saber da dificuldade das pessoas. Não podemos trabalhar como uma máquina.

Comunique – Por que nesse caso o senhor não vive né!

Desembargador – É nós temos muitos juízes que vivem isolados da sociedade.  Eu acho que isso não é correto. O juiz é claro, tem que haver uma parcimônia no seu comportamento, tem que ser uma pessoa reservada, mas nem por isso está impedido de ter amizades , de fazer amigos e continuar vivendo a vida como todo mundo vive né.

Comunique – Como é o João Maria Lós como pai e no convívio com a família?

Desembargador –  Eu tenho um ótimo relacionamento com os meus filhos. São três filhos, um mora aqui e trabalha na policia civil e os outros dois estão em São Paulo advogando. A minha filha formou em Direito, casou com um médico e esta fazendo Psicologia. A minha relação com eles foi sempre boa. A magistratura afasta um pouco a convivência com os filhos, mas eu sempre tive essa preocupação de eu mesmo levar os filhos para escola, eu mesmo ia buscá-los. Às vezes atrasava uma audiência, ligava na escola e pedia que aguardasse um pouco que eu ia busca-los, exatamente com essa preocupação de manter um relacionamento e participar da vida deles. Esse momento de levar e traze da escola é um momento em que a gente pode participar da vida deles e saber como foi o dia na escola, como foi o relacionamento com os amigos e, assim, vamos moldando a personalidade dos filhos. E isso é uma alegria.

Comunique – Netos?

Desembargador – Eu tenho hoje um neto que eu digo que é meu favorito e ele me responde que é o único né (risos). Assim é fácil ser favorito. Mas, com quem eu convivo também porque é fruto de um relacionamento do meu filho, porque se não tivesse tido um casamento ele viveria com a mãe, mas desde pequeno quando eu viajo levo ele comigo. Neto é filho com açúcar. É só alegria…

Comunique – E como ele é?

Desembargador – Ele é um menino muito esperto e muito fácil para tratar. Viaja comigo. Nós viajamos no ano passado e fomos para Recife. Viajamos 9 mil km em um mês e ele nunca reclama da viagem e vai curtindo. Ele tem 10 anos e mora na Bolívia com a mãe. Então quando ele vem para cá eu o levo para conhecer o Brasil para que ele conheça o Brasil. Então eu vou explicando a história e a geografia, as Capitais, para que ele tenha uma noção do que é o Brasil. Hoje ele fala fluentemente o espanhol, estuda numa escola americana, fala inglês e com 10 anos de idade fala três línguas.

Comunique – Tem gente que não consegue falar nem o Português né!

Desembargador – Pois é (risos). Mas, ele tem muita facilidade de se comunicar. Ele é muito dado, muito comunicativo.

Comunique –  Como o senhor ocupa o seu tempo quando não está trabalhando?

Desembargador –  No meu fim de semana, pela manhã, normalmente eu faço uma caminhada pelo Parque das Nações Indígenas onde encontro muitos amigos. O lugar é muito agradável. Depois o resto do lazer é em casa e ai eu saio para algum barzinho com os amigos. Domingo normalmente eu fico em casa com a família e gosto de visitar restaurantes com minha esposa. A gente precisa cuidar disso também né. A gente, às vezes está sobrecarregado de serviço, tem muitos problemas para resolver e isso é uma válvula de escape. A gente não pode desapegar da família né porque a família é o nosso esteio, principalmente nas horas difíceis porque quem fica junto são os familiares. Alguns amigos desaparecem nas horas difíceis. Eu tenho essa preocupação de preservar o relacionamento da família.

Comunique – O senhor já consegue filtrar que são os amigos de verdade?

Desembargador – Isso ai nem sempre a gente acerta né ( risos). A maioria já são amigos ede muitos anos e a gente já encontrou dificuldades nas quais eles estava juntos e continuaram apoiando a gente e já dá para saber bem. Agora , é claro que o cargo atrai, muita gente procura se aproximar e tal, pelo fato da gente estar na presidência do Tribunal. Mas, isso a gente sabe depurar.

Comunique – Como o senhor está vivendo este momento? O senhor aspira um cargo num Tribunal Superior?

Desembargador – Estou muito feliz, muito satisfeito com o fato de ser presidente do TJMS. Eu não aspiro cargo em Tribunal Superior, até porque você alçar o Tribunal Superior você tem que morar em Brasília. Acho que Campo Grande é bem mais agradável para se viver. Não tenho interesse em correr atrás disso, essas indicações são muito disputadas. Tem que fazer trabalho de Lobby. Tem que arrumar um bom contato em Brasília.

Comunique – Um QI né!

Desembargador – (risos) Um QI. Eu não tenho mais idade e nem paciência para isso. Prefiro ficar por aqui. Eu não tenho vaidade. Recebo a presidência como um encargo para realizar coisas em benefício da sociedade, do Estado e dos servidores. Vejo os servidores com uma discrepância salarial muito grande que no momento é meu foco de atenção.

Comunique – Qual vai ser a sua marca na presidência do TJ?

Desembargador – Trabalho. Trabalho e agilizar o andamento dos processos. Pretendo chegar ao final da minha administração com um número menor de processo que temos atualmente.  Esse é um objetivo que quero alcançar.

Comunique – Quais são os seus planos para o futuro depois da aposentadoria?

Desembargador – Eu não penso em advogar. Já advoguei, sei da dificuldade que é advogar, gosto muito de estudar direito e ler a respeito de direito. Você quando começa a pesquisar determinado assunto é uma aventura. Procura dali, pesquisa daqui e na hora que você acha é uma satisfação. Você encontrar uma solução é realmente uma felicidade. Mas, eu não penso em advogar até porque hoje a advocacia é completamente diferente daquele tempo em que eu advogava. A ideia minha quando aposentar num primeiro passo é viajar. Eu tenho intenção de morar uns dois ou três anos na Europa, minha família veio de lá, já estive lá na Polônia com minha mãe e pretendo conhecer bem Portugal, a França, a Espanha, a Itália e a própria Polônia, passar um período lá. Depois, quando voltar, procurar uma atividade. Não pretendo ficar parado não, mas procurar uma outra atividade. Talvez até prestar uma assessoria para um advogado ou alguma coisa desse tipo.

 

 

 

 

2017-03-15T12:00:43+00:00 12/02/2015|Entrevistas|0 Comments

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